Skip to main content

Hulin Ego

ego


VEJA: ORIGINAL

Estrutura fundamental do egoísmo

O ahamkara, em sentido filosófico, é então a estrutura fundamental que dá a chave do egoísmo universal. Posto que cada um faz de si mesmo o centro de referência última e que não poderia haver tantos absolutos quanto indivíduos, é verdade que todos são vítimas da mesma ilusão, se forjando o mesmo gênero de ídolo. O valor de «fabricação» contida em -kara (raiz KR) passa aqui ao primeiro plano: o Eu não existiria na realidade ela mesma, mas seria um produto artificial -krtaka- e, a este título, factício -krtrima- da atividade mental dos sujeitos. Ao mesmo tempo, lhe é preciso, de uma maneira ou de outra, preexistir a esta fabricação mesma, posto que de outro modo a distinção mútua dos fabricantes não se assentaria sobre nada. O ahamkara é portanto, para cada sujeito, ao mesmo tempo uma certa maneira ilegítima de se afirmar em sua singularidade em detrimento e às custas de outro, de se repôr sem cessar no centro do mundo, e uma estrutura já presente como o fundamento mesmo de sua identidade pessoal. Embora se tenha escolhido aqui tomá-lo convencionalmente pelo termo neutro e genérico de «ego», o ahamkara designa propriamente o egocentrismo psicológico e metafísico, enquanto a pretensão subjetiva à singularidade que o faz primário de um mundo disposto (mesmo que seja só espacialmente) «ao redor» de mim. Mas esta ambiguidade se manifestará também na ordem axiológica. O fenômeno do ego não se contenta de nos fazer perder nos impasses do desejo sempre recomeçado e da luta de todos contra todos. Aponta ao mesmo tempo para o Si, o atman, como para o valor supremo e arruína de antemão toda pretensão a um «altruísmo desinteressado», toda alienação do sujeito à serviço de entidades abstratas (os deuses, por exemplo) que não fossem «ele mesmo». O ahamkara é ao mesmo tempo a revelação absoluta e seu desvio imediato na idolatria do corpo próprio e de seus pertencimentos. Representa a forma mais sutil, e logo a mais desafiadora, da ignorância metafísica e serve ao mesmo tempo de fio condutor para a realização de Si. Todas as soteriologias indianas meditam sobre esta realidade híbrida e paradoxal, buscando analisar, a isolar o ouro puro da ipseidade absoluta do chumbo vil do egoísmo.